Meditando com fé


Quando eu comecei a meditar achava que precisaria cultivar o auto-controle para conseguir acalmar meus pensamentos e sentimentos. Achava que seria através do treino e determinação que finalmente conseguiria focar minha atenção apenas na respiração. Quanto mais eu tentava estar presente e calmo, mais meu coração acelerava e era tomado por pensamentos descontrolados.


Hoje, depois de alguns anos, entendo que não era força que me faltava, mas fé. Fé e meditação costumam ser considerados espectros opostos na topologia das religiões, identificamos o primeiro como a crença na existência e poder de ação do Deus cristão sobre alguma situação, o segundo, apenas como práticas orientais, como o Budismo. Para minha surpresa, tenho aprendido que o cristianismo tem uma vasta e rica história de práticas contemplativas.


Fé é uma palavra fora de moda nesses tempos. Um tipo de otimismo tóxico, que limita e cega, algo que acontece apesar de tudo e de todos. Uma colega solteira ainda está cheia de fé que Deus trará um parceiro perfeito para ela, outro, que Deus vai trazer prosperidade ilimitada. Já outro, está cheio de fé que Deus nunca permitirá que ele pegue Covid. Será que é assim que a fé funciona? Querer algo com tanta certeza de que vai conseguir, a ponto de que talvez seja interessante oferecer algo em troca: serviço, dinheiro ou simplesmente, confiança cega. Quem sabe Deus se agrade e conceda nossos desejos?


Eu abri mão dessa dinâmica já faz alguns anos. Hoje cultivo a fé de outra forma, e gostaria de compartilhar com você. Sentado no chão de olhos fechados, vejo o universo dentro de mim. Pensamentos e emoções me tomam e me levam para longe. Lembro do meu passado e imagino o meu futuro. Ouço o eco de conversas que tive, o que disse ou deveria ter dito, ruminações mentais de todo tipo, sou tomado por ansiedades e medos. Não transcendo de forma alguma, estou ali mesmo, cheio de pensamentos.


As vezes, lembro que estou meditando e volto minha atenção para o corpo ou para a respiração. Mas eu observo tudo com a fé de que tudo isso sou apenas eu, e nada disso sou eu. Todos esses medos tem mais relação com minhas inseguranças do que com a realidade. O que penso sobre a opinião dos outros sobre mim, sobre como minha vida será no futuro. Nada disso é verdade, é apenas minha mente projetando possibilidades catastróficas. Quando penso no meu passado e sou tomado por memórias, tudo é apenas do meu ponto de vista, sou incapaz de contemplar a realidade dos fatos.


E no presente, o que sobra? Apenas observação e aceitação. Observo as sensações. Observo as preocupações. Vejo tudo isso com fé. Não uma fé de que Deus existe, disso não tenho mais dúvidas. Mas fé de que tudo que vejo deveria ser do jeito que é. Não existe um milímetro dentro ou fora de mim que não esteja em ordem. Vejo pensamentos e sentimentos virem e irem, os observo. Vejo sensações surgindo e desaparecendo diante da luz da atenção. Sei que tudo isso é normal, não luto mais. Não quero mudar nada. Aceito.


Me lembro que pensar é apenas uma das muitas capacidades do corpo, também posso sentir, relaxar, respirar. Sem expectativa de receber nada em troca, sem a expectativa de ser um homem melhor de forma alguma. Não gasto mais energia pedindo ou desejando. Apenas creio que o que é; é perfeito.


Para isso, preciso ter fé. Não aquela que move o céu, mas a fé que abre nossos olhos para perceber que o céu já está aqui entre nós.


Nathan Sanches


Texto publicado na edição de maio da revista Well


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