O mundo como amarelinha

Como uma brincadeira milenar pode nos ensinar a viver uma vida mais leve.

Sentado na sombra do pátio da escola, vi um grupo de crianças brincando de amarelinha. Esse jogo é muito antigo, até nas ruínas romanas já encontraram rabiscos no chão, ou seja, antes de Jesus nascer, meninos e meninas já saltitavam com um pé só sobre o desenho inconfundível. Todos nós conhecemos as regras. Feitos os riscos no chão de 1 à 10, com o “céu” ao fim, joga-se a pedra e cria-se um obstáculo. Durante o jogo é necessário ter equilíbrio, certa criatividade e muita energia.


Mas ali as crianças não respeitavam regras, pulavam pra lá e pra cá, chegavam no céu e voltavam. O alvo nitidamente não era a competição, mas o superar dos próprios limites e a diversão. Mochilas amontoadas no canto, gritaria, empurrões, suor e gargalhadas. Consegue imaginar a cena? Claro que sim, todos nós já vivemos isso.


Depois de meus 35 anos não brinco mais de amarelinha, as coisas ficaram mais sérias, as obrigações e expectativas mais reais. Se fosse para acreditar que minha vida tem um início, um meio e um fim, poderia dizer que o ato de brincar ficou lá atrás, e sei que essa forma de olhar a vida como jornada linear não é exclusiva para mim.


Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”

Perceber a vida como uma competição não é algo novo, a cultura ocidental foi muito influenciada pela Bíblia, e mais precisamente pelo apóstolo Paulo de Tarso. Em uma das cartas para seu aprendiz Timóteo, ao fim de sua vida, Paulo desabafa: terminei a corrida.


Como você percebe a sua vida? Muito provavelmente como uma jornada linear, como uma competição e talvez até mesmo como uma batalha cheia de adversários. Claro, percebemos a pressão, o cansaço, vemos nossos competidores e cremos que existe um juiz pronto para nos dar ou negar uma medalha. Não me impressiona que hoje haja tanta ansiedade e depressão. Quando não nos sentimos perdidos por não saber para que lado a corrida se dá, estamos sem forças para correr atrás de competidores que aparentemente já nos deixaram para trás faz muito tempo.


A comparação e a sensação de insuficiência são cada vez maiores. Mas por quê? Porque para nós, corrida é competição e não brincadeira. A vida se tornou uma obrigação e não um prazer.

A sabedoria oriental tem um conceito que tem me ajudado a ver minha vida por novas lentes: Leela, a palavra em sânscrito que significa jogo. Para o sábio Vedanta, a vida é Deus cheio de vontade de brincar - às vezes parece uma corrida, às vezes parece uma luta, mas é como a amarelinha, tem o céu no fim, mas não passa de uma brincadeira.


Olhar a vida como Leela, ou como amarelinha, me faz repensar muitas coisas. Vejo um começo, percebo um fim, e um céu. Mas o objetivo não é necessariamente chegar lá, mas me divertir aqui. Há competidores ao meu lado, mas ao invés de inimigos, se tornam amigos. Há pedras, há desafio, mas ao invés de serem problemas, se tornam jogo, Leela.


Viver uma vida como amarelinha não é muito diferente do que viver uma vida como corrida, ou como batalha. O que muda é nossa percepção interna, nosso coração e as gargalhadas - a fé é a mesma, que no fim não há um juiz, mas sim um bom Pai para nos buscar na escola.



*Texto publicado na edição de outubro da revista Well Magazine.












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